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13 de dezembro de 2019

A última dose



aqui vamos nós, mais uma vez, a última bebida, o último
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.

Putrefação



nos últimos tempos
ando pensando
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
pessoa para com
pessoa
foram totalmente
varridos
e trocados pelas mesmas
intolerâncias
de sempre.

temos
mais do que nunca
o egoísta desejo pelo poder
o desrespeito pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.

estamos trocando necessidade por
guerra
salvação por
escravidão.

desperdiçamos os
ganhos
viramos
rapidamente
menos.
temos a nossa Bomba
é o nosso medo
nossa danação
e nossa
vergonha.

agora
algo tão triste
nos domina
que
a respiração
escapa
e não conseguimos nem mesmo
chorar.




18 de setembro de 2019

Como está seu coração ?




durante os meus piores momentos
nos bancos de praça
nas cadeias
ou morando com
putas
sempre senti certo
contentamento –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais um equilíbrio
íntimo
que se acomodava com
qualquer coisa que estivesse ocorrendo
e isso ajudou nas
fábricas
e quando relacionamentos
davam errado
com as
garotas.

ajudou
ao longo das
guerras e das
ressacas
das lutas nos becos
dos hospitais.

despertar num quarto barato
numa cidade estranha e
levantar a cortina –
esse era o tipo mais louco de
contentamento
e atravessar o piso
até uma velha cômoda com um
espelho rachado –
ver meu reflexo, feio,
sorrindo perante tudo.

o mais importante é
você saber
caminhar através do
fogo.




Um poema ordinário




já que vocês sempre quiseram
saber vou admitir que nunca gostei de Shakespeare, Browning, das
irmãs Brontë,
de Tolstói, beisebol, verões no litoral, queda
de braço, hóquei, Thomas Mann, Vivaldi, Winston Churchill, Dudley
Moore, verso livre,
pizza, boliche, os Jogos Olímpicos, os Três Patetas, os Irmãos
Marx, Ives, Al Jolson, Bob Hope, Frank Sinatra, Mickey
Mouse, basquete,
pais, mães, primos, esposas, morar junto (embora preferível à
opção anterior),
e não gosto da Suíte do Quebra-Nozes, da entrega do Oscar, de Hawthorne,
Melville, torta de abóbora, véspera de Ano-Novo, Natal, Dia do Trabalho,
Quatro de Julho, Ação de Graças, Sexta-feira Santa, The Who,
Bacon, Dr. Spock, Blackstone e Berlioz, Franz
Liszt, meia-calça,
piolhos, pulgas, peixe-dourado, caranguejos, aranhas, guerra
heróis, voos espaciais, camelos (não confio em camelos) ou da
Bíblia,
Updike, Erica Jong, Corso, bartenders, moscas-das-frutas, Jane
Fonda,
igrejas, casamentos, nascimentos, noticiários, cães
de guarda, rifles .22, Henry
Fonda
e todas as mulheres que deveriam ter me amado mas
não amaram e
o primeiro dia da primavera e o
último
e o primeiro verso deste poema
e este aqui
que você está lendo
agora.




Se foi



foi embora como as damas de antigamente
enquanto eu abria a porta
para o quarto
cama
travesseiros
paredes

eu o perdi
eu o perdi em algum lugar
enquanto caminhava pela rua
ou enquanto levantava pesos
ou enquanto olhava um desfile
eu o perdi
enquanto olhava luta livre

ou enquanto esperava no sinal vermelho
ao meio-dia em certo dia poluído

eu o perdi enquanto inseria uma moeda
num parquímetro

eu o perdi
enquanto os cães selvagens dormiam.