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Do jeito que é agora
te digo
já vivi com algumas mulheres deslumbrantes
e estava tão enfeitiçado por aquelas
lindas criaturas que
minhas sobrancelhas tremiam.
mas eu preferia dirigir até Nova Iorque
de marcha-ré
do que viver com qualquer uma delas
de novo.
a próxima estupidez clássica
será a história
daqueles caras
que herdaram meu legado
feminino.
no caso deles
assim como no meu
eles descobrirão
que a loucura
é causada por não
ficar tempo o suficiente
sozinho.
Lá vamos nós de novo
caminhei até meu carro
e lá estava um bilhete sob o
limpador de pára-brisas:
"ei velhinho,
me liga qualquer dia.
você sabe
meu número está na
lista."
e ela assinou:
"olhos castanhos claros."
eu sabie quem era,
as letras grandes eram imediatamente
reconhecíveis sem a
assinatura.
ela me pregara na cruz por um
ano.
ela viera depois daquela que me
pregara na cruz por cinco anos.
rasguei o bilhete.
então a mais recente veio andando
até o carro.
"pronto pra ir, paizinho?" ela perguntou.
"pronto pra ir," eu disse.
entramos no carro e saímos.
precisávamos de limões, pão, peixe,
verduras, azeite de oliva, vinho e
papel higiênico,
a ração do gato e talvez cebolas também.
Não podemos
não podemos
vencer
sabemos que não podemos
vencer
fazer o certo e
vencer
fazer errado e
vencer
alguma outra pessoa irá
vencer
é o que acontecerá
mas aceitar isso é
impossível
como um gato que uma vez vi ser morto e
esfolado ante meus
olhos
e os rostos
humanos
assistindo
Não podemos
não podemos
vencer
sabemos que não podemos
vencer
fazer certo e
vencer
fazer errado e
vencer
alguma outra pessoa irá
vencer
é o que acontecerá
mas aceitar isso é
impossível
como um gato que uma vez vi ser morto e
esfolado ante meus
olhos
e os rostos
humanos
assistindo.
Do jeito que é agora
te digo
já vivi com algumas mulheres deslumbrantes
e estava tão enfeitiçado por aquelas
lindas criaturas que
minhas sobrancelhas tremiam.
mas eu preferia dirigir até Nova Iorque
de marcha-ré
do que viver com qualquer uma delas
de novo.
a próxima estupidez clássica
será a história
daqueles caras
que herdaram meu legado
feminino.
no caso deles
assim como no meu
eles descobrirão
que a loucura
é causada por não
ficar tempo o suficiente
sozinho.
Bandeira real
noites ruins não podem ser curadas com poemas ruins, você
tem que esperar, olhar para a maçaneta, ler o jornal
todo de novo
você não é o único a ter uma noite ruim, este é um
mundo cheio de noites ruins
e às vezes basta ter uma máquina de escrever
e
fumar um cigarro
e só olhar para a máquina
e divagar sobre a sorte que você teve
com essa máquina e
com outras máquinas
no entanto
uma está mimada
uma quer
mais e mais
e agora meus dedos
batem nas teclas
e contam para você e para
ela
sobre tudo isso.
Olá
às vezes mesmo escrever não ajuda
e você fica sozinho com qualquer coisa que esteja
matando você
e a estupidez das
paredes penetra
em você
e lá no canto está a
garrafa -
sua última amiga, sua última amante,
sou outro teclado.
olá.
Olha isso!
minha vida toda
andando
cá e lá
ouvi vozes -
geralmente duias pessoas
se aproximando de mim:
"Jesus Cristo, olha só aquele cara!"
ou:
"meu deus, você viu aquilo?"
acontece nos supermercados
nos hipódromos
nos estacionamentos
nas lojas de departamentos
ou quando estou caminhando
rua abaixo:
"ei, você viu aquele cara?"
evidentemente existe outro jeito
com o qual uma pessoa deva se parecer.
eles me xingam
quando passo:
"aquele filho da puta!
você viu aquele fudido?"
continuo andando.
não há muito mais que eu
possa fazer.
Este hábito
é feito ao se viver com as mulheres, uma após a outra,
e finalmente sem elas;
é feito ao parar na janela e assistir um cachorrinho passando;
é feito em uma lanchonete enquanto você lê os
resultados das corridas e come um sanduíche;
é feito enquanto você fala com sua filha
que agora é uma mulher adulta na faculdade;
é feito ao semear o jardim enquanto
você se recupera da confusão da véspera;
depois vêm as palavras, as malditas e amadas
palavras vêm mais e mais
enquanto você se senta sozinho e
datilografa.
"posso te ouvir datilografando de noite," diz meu vizinho.
"oh, me desculpe..."
"não," ele diz, "é um som agradável."
ele está certo, é mesmo.
e quando eu não faço esse som por
dois ou três dias
me torno aflito
minha face fica com uma cor doentia, e -
acredite em mim -
tenho visões da minha morte.
mas datilografando sou
imortal.
bem, talvez não imortal.
mas este hábito
esta velha máquina de escrever e
este velho
vivem bem juntos.
É difícil quando bananas comem macacos
em parte é o fervor e em parte a poça de
lama e em parte as vozes -
(com os rostos eu já me acostumei; os anos foram generosos
comigo)
mas quando os rostos
falam
não há prazer em permanecer na multidão.
talvez o homem verdadeiramente original não exista, eu
nunca o encontrei.
às vezes acho que será o manobrista do estacionamento. ele
caminha em minha direção. ele sorri. ah, é agora, eu
penso
então ele diz, "daí, campeão," ou alguma outra coisa igualmente chã e
idiota.
eu respondo com uma frase que navega sobre
seu ombro esquerdo e se apaga
em uma galeria verde em direção à
rua.
lhe dou minhas chaves
lhe dou meu carro
ele sai dirigindo e eu caminho para dentro do
lugar.
a recepcionista
chega. "sim?" ela
diz.
sim, o quê? preciso comer para continuar
vivo. sigo sua bunda
(que tem um certo charme inferior) mas continuo
pensando
terei que dar uma gorjeta para aquele filho-da-puta lá fora
enquanto ele deveria ser
guilhotinado.
Loucura?
olha, ele disse, admita.
o quê? perguntei.
quando você vê aquela gorda
no supermercado que está
escolhendo laranjas, não
se sente a fim de ir lá e
espremer aquelas ancas feias
bem forte
apenas para ouvi-la gritar?
do que diabos você está falando,
cara? perguntei.
o quando o garçom te traz
teu jantar, não pensa
por um instante que poderia
matá-lo?
não antes do jantar, respondi.
o que estou querendo dizer com isso,
ele continuou,
é que há uma linha muito tênue
entre o que chamamos de sanidade e
o que chamamos de loucura
e que o esforço que fazemos para
permanecer no lado são
só é feito para que não sejamos
punidos pela
sociedade.
senão, iríamos
frequentemente cruzar essa linha e
as coisas seriam muito mais
interessantes.
eu não sei do que diabos
você está falando, cara,
eu disse a ele.
ele apenas suspirou, me olhou
e disse, deixa pra lá, amigo.
Bem morto
discurso vazio e pretensioso lambuzado em muros
santificados
repetidas e repetidas vezes
até que quase todo mundo acredite que é
viável.
afetações dos séculos aceitas
como Arte.
cuidado com os livros didático, cuidado com as bibliotecas,
cuidado com as galerias,
cuidado com o pai e o professor.
cuidado com a mãe.
nascemos numa civilização atordoada
por uma mediocridade esmagadora.
o que está diante de nós é um truque, uma
ilusão, uma mentira.
o útero nos cuspiu num cano de esgoto.
novos deuses são necessários.
novas portas precisam ser abertas.
esperamos tanto por tão pouco.
devemos romper o cerco.
essa obscuridade fede a nós,
aqui.
Não quero Cleópatra
Estou sempre me exibindo.
saio pela porta da frente de cueca
me abaixo para pegar o jornal e
minhas coisas ficam pra fora.
tomo banho de sol pelado no quintal
e às vezes me levanto.
“seu idiota”, minha namorada diz,
“a senhora Catherty pode te ver por
cima do muro!”
“onde ela está?” pergunto.
“está logo ali regando as
roseiras!”
“oh…”
“abaixe-se!”
para mim, a nudez é uma piada.
não acho que pessoas nuas sejam atraentes
de modo algum.
gosto de minhas mulheres completamente vestidas.
gosto de imaginar o que pode haver ali por
baixo.
pode não ser o que você esperaria.
imagine-se despindo uma mulher
e seu corpo é como um pequeno submarino
com um periscópio, hélices, alguns torpedos.
seria a mulher ideal para mim!
me casaria com ela imediatamente e
seria fiel até o fim.
Sem Combustível
você vê
as fábricas cansadas?
os navios errantes e putas sorridentes?
França e a terra quente?
as altas horas?
você vê
agora que você vê que
tudo que nos disseram
estava errado?
o elefante capturado
daquele jeito
e enjaulado
daquele jeito?
o modo como nos enganaram
e nos enjaularam também?
quão docemente triste parece isso
quão triste e doce
ao passar por pessoas solitárias na
rua
os crânios atrás da
pele
as artérias bravamente
bombeando líquido
enquanto elas se apressam para fazer
todas as coisas tolas que
têm que fazer.
mas o que você não vê
é o relógio que diz
meia-noite
e esse coração em mim
mesmo
sem combustível.
o que você vê é que
o que mais importa
não importa mais
tanto.
o que você vê é
o cachorro na estrada
que não se mexe.
o que você vê são
homens assustados em tanques e uniformes
nada diferente dos operários
que já conheci.
o que você vê é
Toulouse-Lautrec mijando
vermelho
e o probre Van Gogh
pigando amarelo.
o que você vê são
sapos e dentes-de-leão
pardais mortos na rua
amantes na chuva
o carrasco balançando ao vento.
agora você vê.
Não quero Cleópatra
Estou sempre me exibindo.
saio pela porta da frente de cueca
me abaixo para pegar o jornal e
minhas coisas ficam pra fora.
tomo banho de sol pelado no quintal
e às vezes me levanto.
“seu idiota”, minha namorada diz,
“a senhora Catherty pode te ver por
cima do muro!”
“onde ela está?” pergunto.
“está logo ali regando as
roseiras!”
“oh…”
“abaixe-se!”
para mim, a nudez é uma piada.
não acho que pessoas nuas sejam atraentes
de modo algum.
gosto de minhas mulheres completamente vestidas.
gosto de imaginar o que pode haver ali por
baixo.
pode não ser o que você esperaria.
imagine-se despindo uma mulher
e seu corpo é como um pequeno submarino
com um periscópio, hélices, alguns torpedos.
seria a mulher ideal para mim!
me casaria com ela imediatamente e
seria fiel até o fim.
Sem combustível
você vê
as fábricas cansadas?
os navios errantes e putas sorridentes?
França e a terra quente?
as altas horas?
você vê
agora que você vê que
tudo que nos disseram
estava errado?
o elefante capturado
daquele jeito
e enjaulado
daquele jeito?
o modo como nos enganaram
e nos enjaularam também?
quão docemente triste parece isso
quão triste e doce
ao passar por pessoas solitárias na
rua
os crânios atrás da
pele
as artérias bravamente
bombeando líquido
enquanto elas se apressam para fazer
todas as coisas tolas que
têm que fazer.
mas o que você não vê
é o relógio que diz
meia-noite
e esse coração em mim
mesmo
sem combustível.
o que você vê é que
o que mais importa
não importa mais
tanto.
o que você vê é
o cachorro na estrada
que não se mexe.
o que você vê são
homens assustados em tanques e uniformes
nada diferente dos operários
que já conheci.
o que você vê é
Toulouse-Lautrec mijando
vermelho
e o probre Van Gogh
pigando amarelo.
o que você vê são
sapos e dentes-de-leão
pardais mortos na rua
amantes na chuva
o carrasco balançando ao vento.
agora você vê.
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